Claro Brasil Ride - Boletim #4

Stage 3

A experiência não é exatamente agradável. Sair da barraca ouvindo os pingos da chuva, trocar o quente pelo frio, ainda por cima molhado, é para mim uma grande superação. Ao ouvir o DJ colocando a trilha sonora da alvorada, às 05 horas da madrugada, me sinto reticente.

Mas passa assim que começamos a nos movimentar. Foco na largada e a preocupação com a manutenção da bike, além claro do café da manhã, ocupam a mente e os minutos voam. O corpo parece ter entendido o que estou fazendo. Tudo fuciona maravilhosamente bem.

E sigo atento à regra: Não pedalo para emagrecer. Pedalo para comer. O que tiver vontade e, nesse caso específico, muito de tudo.

O terceiro estágio começou com uma subida íngreme, todos ainda reclamando da dureza da etapa anterior. As pernas pareciam pesar uma tonelada. Deixamos Rio de Contas e em poucos minutos estávamos numa trilha fabulosa, tipo single treck (trilha para uma única bicicleta por vez), com muitas pedras, extrememente técnica.

Meu parceiro deu mostras de estar com o desempenho comprometido, e seguimos com tranquilidade. Momento ideal para apreciar a paisagem exuberante, além claro do prazer de estar ali, fazendo o que gosto. Fila indiana, para frente e para trás.

A alegria, no entanto, durou pouco. Com cerca de 10 km meu câmbio traseiro partiu-se ao meio, sem que tivesse feito qualquer esforço concentrado. Quando examinei e vi a peça solta, pensei na gancheira da bike. E a tristeza e a decepção desabaram com se tivessem sido convidadas.

Assim que meu parceiro me encontrou, pedi a ele que fosse em frente, que seguisse até o próximo apoio da Shimano na tentativa de encontrar a peça.

Enquanto empurrava a bike morro acima, o representante da Scott no Brasil passou e ajudou. Segurei em seu braço e ele me rebocou por algumas centenas de metros. Mas com a inclinação, este fato comprometeria seu pedal, então agradeci e voltei a empurrar.

Continuei morro acima e um outro atleta passou, pegou minha bike e saiu empurrando enquanto pedalava a dele. E me disse:

- Bora… Vem correndo que eu levo sua bike até o topo dessa subida.

Comecei a correr e, minutos depois, percebi que o sujeito que carregava minha bike, animado e determinado a ajudar um estranho, não possuia uma das pernas. Isso mesmo!

Com uma prótese na perna direita, pedalava como se fossemos parceiros nessa jornada. Quando percebi a cena, recobrei aquela velha determinação:

- Quer saber, vou correndo!

Weimar Pettengill
Foto: Alexandre Cappi

E assim o fiz. Foram 35 km empurrando a bike. Correndo nas subidas mais íngremes e no plano, mas voando morro abaixo. Alternando alguns trechos de caminhada para conseguir comer um pouco.

Foram 3h30 de corrida até chegar ao ponto de apoio onde deveria encontrar meu parceiro. Nada. Nem peça, nem parceiro.

Como muitos gostariam de participar do Claro Brasil Ride, mas sem sofrer MUITO, a organização providenciou o Trip Claro Brasil Ride – uma viagem de bike no melhor sentido da curtição. Foi essa minha sorte. Encontrei o amigo Oswaldo Barbosa, que acabara de concluir o pedal do dia.

- Pegue minha bike, Weimar!

Não tive dúvidas. Troquei os pedais e parti para os últimos 40 km. Nunca imaginei que depois de correr uma maratona morro acima fosse possível subir numa bicicleta e pedalar como se o dia estivesse começando naquele momento. Que alegria. Nem lembrava mais dos pés em brasa, resultado de correr com sapatilha de mountain bike.

Mas como tudo pode acontecer, depois de um down hill fabuloso em função da lama, me deparei com uma situação inusitada: Cerca de 60 competidores parados, na margem de um rio. A chuva fora tão forte que transbordou a caixa do rio, invadindo a estrada, separando a prova em duas!

Gastamos cerca de uma hora até desbravar uma trilha na margem esquerda do rio, e encontrar uma outra passagem, uma ponte de concreto com altura suficiente para nos permitir ultrapassar.

De volta à estrada, tentávamos organizar um pelotão único para retornar à cidade quando percebemos um grupo de 04 portugueses, cerca de 5 minutos à nossa frente.

- Ah é?! Vamos nessa!

Tá bom, vai. Dizem que as pessoas que fazem moutain bike não envelhecem. Eu posso garantir que remoçam. Isso foi o que aconteceu com o Maurício Gonçalves, com o Ivam Melo e eu, naquele exato momento em que miramos o grupo à frente.

- Brasil X Portugal – acelera!

Foram quase 40 minutos de força ininterrupta. Alcançamos, ultrapassamos e seguimos fortes até a linha de chegada. É o espírito de criança que colocamos para fora nessas ocasiões. Fantástico.

Buenas, com sorriso de orelha a orelha!

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