Esporte Radical x Esporte de Aventura


Veiculado no Correio Braziliense em 09/01/2011.

Não me refiro a conceitos acadêmicos de pouca influência. Escrevo sobre erros crassos que nos impuseram – no mínimo – uma década de atraso.

Desde a Roma antiga e seus gladiadores – para não me perder na história das civilizações, a magia de enfrentar a morte cria uma dicotomia entre as pessoas: há os que se sintam atraídos pelo desafio e os que repelem incondicionalmente o risco, mas terminam inebriados quando podem acompanhar de perto a batalha de outro, distante o suficiente para manter-se intacto, perto o bastante para acompanhar – ao vivo – a conquista ou o fim trágico.

Ousaria dizer que os Romanos são os criadores dos esportes radicais. E com maestria souberam colher os frutos de uma multidão entorpecida pela iminência, sem retorno, da exposição da vida alheia. Em tempos modernos, são os XGAMES os grandes responsáveis por reeditar os Jogos Extremos. O homicídio não é mais tolerado, mas posso dispor da minha vida me lançando de moto para o topo da réplica do Arco do Triunfo, em Las Vegas, como fez Robbie Maddison – visto milhões de vezes pelo Youtube.

Sinônimo de radical, a adrenalina – hormônio descarregado em tais situações – passou a designar tudo o que não é esporte conhecido, principalmente para descrever o que é realizado em ambientes naturais.

Já os esportes de aventura, praticados ao ar livre, diferem em um quesito fundamental: você escolhe o nível de risco que pretende correr. A resultante é a endorfina (e, mais recentemente descrita pela ciência, a anandamida), como resultado de horas de prática, produzidas naturalmente pelo organismo, causando a sensação de prazer, de felicidade, permitindo esquecer a dor e o sofrimento, e em alguns casos levando ao vício.

Ao classificar tudo como radical, afastamos o pai e a mãe de família, o empresário, o profissional liberal, o executivo, enfim, quem não está buscando limites, muito menos enfrentar conscientemente altos riscos. 
Deixamos assim de estimular o mountain bike, o rafting, da canoagem, a escalada, o mergulho, a corrida de aventura, e uma infinidade de outras práticas extremamente saudáveis, inclusivas, fontes de sociabilização.  Pior: deixamos de estimular novas agências de turismo de aventura, de capacitar toda uma rede de colaboradores que poderiam, nos pontos mais remotos do nosso país, independente de grandes investimentos em infraestrutura, fazer uma grande diferença, gerando novos postos de trabalho, alternativas de renda e destinação ambientalmente correta para o patrimônio natural.

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