- Mãe, posso ir?

Publicado no Correio Braziliense em 08/05/2011


Mother and Child / Howard Weingarden

O relógio marcava 02 horas da madrugada, e eu não queria acreditar no que meus olhos viam. A tempestade que assolava o lago Paranoá naquela noite fria era totalmente incompatível com qualquer margem de segurança. Enquanto 60 atletas tentavam completar o segundo trecho da corrida de aventura Desbrava Centro-Oeste, caiaques afundavam. Pedidos de resgate vinham de todos os lados, dos hotéis nas imediações da Concha Acústica, inclusive do Palácio da Alvorada, onde dois competidores estavam sob a mira de metralhadoras, ao tentar aportar no cais para fugir da tempestade.

Em meio ao caos, interrompemos a prova e fizemos a contagem: 59 atletas localizados. Faltava um. Em poucos minutos descobrimos quem: Alexandre Manzan. Fizera o primeiro trecho da canoagem tão rápido, que conseguira partir para o segundo, a travessia para o Varjão, antes que a tempestade entrasse em seu pior estágio.

Parti sem demora para a lancha de resgate. Longe da terra firme, somente escuridão, neblina assustadora e chuva torrencial. Ao olhar para trás, notei o semblante de uma mulher, em pé às margens do lago, em um silêncio contido, visivelmente aflita, que me lançou um olhar carregado de todas as esperanças possíveis: - encontre meu filho.

A visão emblemática da Dona Eneida Fontes me acompanha desde aquela madrugada, no dia 02 de novembro de 2003. Mudei até mesmo a relação com a minha mãe, ao perceber o que se passa com quem fica, a espera de notícias. Acredito que nem mesmo o pai mais envolvido, preocupado e cuidadoso consegue supor o que se passa no tal Coração de Mãe.

Se já é difícil o processo de entender que o filho é outra pessoa, com vontade própria, que vai tropeçar, cair, machucar-se, levantar e aprender, desde os tempos pueris, imagino então como é ser mãe de escalador, ciclista, canoísta, corredor de aventura, triatleta, e outras tantas modalidades praticadas individualmente, muitas vezes em locais ermos, com remotas possibilidades de comunicação.

E pensar que tudo começa em uma determinada fase da vida, mais ou menos assim: - Mãe, posso ir? 

Neste dia das mães, agradeço à minha por ter permitido que eu fosse, um dia. Também quero homenagear todas as mães que, ainda relutantes, continuam permitindo nossas idas (também cabe: tolerando, apoiando, incentivando ou ignorando). Um brinde especial ao abraço da volta e ao colo, quando as coisas fogem do planejado.

Às “novas” mães, ditas modernas, descoladas, companheiras, aventureiras e participativas, um nota: o exemplo é um fundamento da educação. Obrigado.

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