Ah! Muleque

Veiculado no Correio Braziliense em 03 de julho de 2011. Fotos Weimar Pettengill

Partida para 4 dias de pedal no Sertão Goiano.

Segundo a gíria corrente, o título desta coluna é a verbalização de um sorriso maroto, depois de algum feito empolgante. Mas se considerar o dicionário do Esporte & Aventura, acrescente o paraíso do Centro-Oeste no que diz respeito a momentos inesquecíveis, de superação e conquista, do tipo que alimentam a alma — e talvez você consiga chegar perto do que vivemos no último fim de semana, Corpus Christi de 2011.

Faço referência ao Vão do Muleque, grafado assim mesmo. Um vale que recebe o Rio Paranã, ao norte de Goiás, na divisa com Tocantins. Região Kalunga, comunidade quilombola instalada desde os tempos áureos do Brasil Colônia. Apenas 300km separam a capital federal de uma vida regida pelo dia e pela noite, pelas chuvas e pela seca. Pelos rios cristalinos de temperatura perfeita e o céu mais estrelado que já testemunhei. Onde as pessoas vivem da criação, da pesca e da plantação familiar, em casas de adobe com teto de palha, armadas com um sorriso desconfiado, mas hospitaleiro. Região das mais incríveis trilhas e estradas cavaleiras, algumas utilizadas há séculos. Outras tantas rodagens abandonadas, além de conexões maiores com trechos permanentemente patrolados. O paraíso para a bicicleta, escalada, canyoning, voo livre, caminhadas longas e o que mais você conseguir imaginar.

Ivam Melo, atravessando o Rio Corrente, próximo ao Dedo do Muleque.


Já conhecia com detalhes o Vão de Alma, mais inóspito e inacessível, e o desafio dessa vez foi guiar um grupo de 13 amigos (Coroas do Cerrado, Konskritos e convidados) para uma viagem de quatro dias pelo Sertão Goiano, com apoio impecável da Suçuarana — Agência de Turismo de Aventura de Cavalcante-GO.

Rafael Fernandes, saltando da ponte do rio Prata, antes da temível Rampa dos Kalungas.


O projeto era pedalar muito. Horas ininterruptas, espaçadas por banhos de cachoeiras. Estradão, trilhas, down hill (descida de montanha), up hill (subidas) e vários push bikes (empurra bikes). Como diz o amigo Ivam Melo, existem quatro tipos de trilhas de MTB: de bicicleta, com a bicicleta, apesar da bicicleta e com a maldita bicicleta. E todas as alternativas seriam utilizadas. E foram.

Marcelo Magal, um dos 14 integrantes da épica trip.


Percorremos cerca de 250km em quatro dias, com aclive acumulado de 4.260m. Eu consumi cerca de 19 mil calorias considerando somente as 23 horas de pedal efetivo. O primeiro dia foi marcante, pelas 10 horas gastas para percorrer 72km, mas o terceiro dia ficou estampado na musculatura das pernas: em 13km, subimos 800m, algo incrível para uma jornada dessa magnitude. Felizmente, todas as noites foram regadas a banho de rio, churrasco, Heineken gelada, Pinot Noir sul-africano e uma bela macarronada para reabastecer as energias. Além de um bom papo com os amigos, iluminado pelo céu estrelado dos Kalungas.

Céu estrelado, camp site ao lado do rio Curriola, no Vão do Muleque.

Mais uma grande aventura, fácil de realizar. Bastou querer. E já estou querendo novamente.

Comentários

Postagens mais visitadas