Esmolas? Obrigado.

Publicado no Correio Braziliense em 18 de setembro 2011.

Fotos: Blog www.cavaleiroserjao.blogspot.com

Ato 1
Conheci o Sérgio Oliva, servidor público concursado, que sofreu paralisia cerebral, que tem sequelas, mas que preferiu ser estrela à coadjuvante: reuniu sua determinação, muniu-se de outros dois irmãos gêmeos, e partiu em busca de realizações: foi para Pequim, viveu o sonho olímpico, foi campeão Pan-americano e Mundial na modalidade adestramento equestre. Um exemplo de vida, de garra no esporte adaptado. Um espelho onde milhares de crianças podem enxergar suas próprias capacidades, onde famílias podem buscar a inspiração.
Ao perguntar sobre sua maior emoção na carreira esportiva, ouvi do Serjão que foi subir ao lugar mais alto do pódio, ser coroado Campeão Mundial, e ouvir o hino do Brasil. Mesmo acostumado a compartilhar bem de perto outras conquistas, foi impossível para mim conter a emoção.


Ato 2
Pagando do bolso as próprias despesas, com a incansável ajuda dos irmãos, da família e de vários amigos, o Sr. Sérgio Oliva, do Brasil, utiliza um cavalo alugado, já em tempo de aposentadoria. Firme companheiro, mas que já cumpriu sua missão.
E agora? Essa é a pergunta. Para entender a gravidade, só estando perto de centenas de atletas amadores que treinam e levam a vida regrada de profissionais, ganhando esmolas, quando não pagando do próprio bolso o custeio dos treinos, da alimentação, da moradia, sacrificando a família direta ou indiretamente, para que um dia o seu país possa comemorar.


Ato 3
Imagino, só e frustrado com tantos exemplos de descaso, como deve ser a formação superior, ou pós-graduação, em marketing esportivo: - Compre um espaço numa camisa de time de futebol. E esqueça o resto.
Pretendemos ser muito, país desenvolvido, colosso da economia no continente, receber uma Olimpíada! Fico pasmo, sigo cético. Não fazemos o dever de casa, e “mais do que nunca na história desse país”, os próximos anos serão de óbvia veneração à bola, em detrimento a todo o resto.
Não cuidamos da base, não permitimos escolha, não incentivamos o esporte amador. A maratona correndo atrás de um selo de um ministério não é certeza nenhuma de êxito na captação de recursos, e o tempo precioso de foco nos treinos é desperdiçada. 
As empresas estão única e exclusivamente focadas no lucro, deixando de lado sua responsabilidade sobre a construção do social, acreditando que o governo, burocrático empilhador de cimento e aço, preencherá o vazio das arenas, nos pódios do Rio 2016, onde singelos verde-amarelos continuaram a fazer verão, espero.
Enquanto isso, faça-me um favor: acesse www.cavaleiroserjao.blogspot.com e descubra como ajudar o Serjão no seu plano obstinado de ouvir o nosso hino em Londres. 


Comentários

Postagens mais visitadas