MTB Ultramaratona - Um tributo à parceria

Publicado no Correio Braziliense em 06/nov/2011.

Foto: Ivan Padovani - Brazil Ride 2011

O raciocínio que fundamenta a regra é simples: o percurso de uma ultramaratona de moutain bike, além de técnico, sinuoso e ermo, proporciona ao atleta, durante boa parte do dia, a solidão. E quando bate o cansaço físico, ou mesmo psicológico, a chance de cometer erros aumenta, assim como a margem de acidentes. Além disso, sempre ficamos com aquela ponta de competitividade que nos implora: - solte o freio!

Assim, todas as edições de ultramaratonas que existem no mundo compartilham um mesmo princípio: a realização em duplas. Aos olhos da organização, não existe mais solidão. Em caso de acidente, resta um para fazer a primeira avaliação, solicitar resgate, e aguardar fazendo companhia. Além, claro, do contra-peso fundamental para recobrar o juízo quando alguém se excede.

Mas para os participantes, esse pode ser o princípio do fim. Se pedalar 100km em um dia é difícil, imagine fazer isso durante uma semana, com até 12h de duração de uma etapa, em território desconhecido, obrigado a permanecer junto a outra pessoa.

O nível de estresse é alto, e generalizado. Nesse momento, o que deveria ser ajuda passa a ser “o problema”. Vi duplas digladiando-se no Brasil Ride. Discussões, humor azedo, raiva até. Chegamos ao ápice de um integrante simplesmente ir embora da Bahia, no quarto dia de prova, abandonando o companheiro.

Foto: Bruno Senna - Brazil Ride 2011

Enquanto esse cenário se desenvolvia, intenso, cheguei a sugerir ao meu parceiro: - melhor arrumar um motivo para brigarmos. Acho que somente nós estamos errados! Mas em sete dias intensos de grande desgaste físico e psicológico, posso atestar que a minha camisa e medalha de finisher devem honras a um termo que jamais será esquecido: meu Parceiro. Assim, com letra maiúscula. Pelos momentos de compreensão, de apoio, de ajuda física até. Pela responsabilidade e zelo nas descidas técnicas, e pelo bom humor nas horas críticas.

Como digo sempre, não é necessário procurar muito para encontrar o lado pesado da vida. Mas para uma ultramaratona, a relação deve ser leve tanto para bicicleta como para os momentos de convivência.

Portanto, fica a dica: trate de construir, desde já, a parceria ideal. Tenho recebido inúmeros telefonemas e e-mails de interessados em participar da edição 2012 do Brasil Ride e estou convencido que Brasília terá inúmeros representantes na próxima, saudando os títulos de Abraão Azevedo, Josemberg "Montoya" Pinho com seu parceiro Raphael "Catalão" Mendes, Heleno Borges e Giovane Rufino, além de tantas outras camisas de finisher, que serão utilizadas como manto sagrado no pelotão e nas trilhas do cerrado.

Foto Fernando Monteiro - Brazil Ride 2011

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