Desafio da Canastra 2004

O texto é de 2004, minha primeira incursão à Serra da Canastra. Depois de 08 anos, vou para a sexta trip de bike, e uma de moto. Vou republicar o texto para servir de inspiração para quem vai comigo agora em 2012, e como alerta para os desavisados.



Abençoado povo mineiro!

A difícil tarefa de deixar Brasília para viver uma grande aventura e poder compartilhá-la com vocês estava sendo assombrada pela proposta: cruzar a Serra da Canastra – MG em três dias, totalizando 275 km, pedalando.

No Cerrado, isso já não seria simples. Imaginava como seria em uma Serra.

Não tem explicação. O porquê de se fazer isso, ninguém consegue definir ao certo. Deixar o conforto do lar sendo o sofrimento a única certeza, mais nada. Se vamos conseguir, se a bicicleta vai suportar, se as pernas vão faltar, se a comida vai dar... isso sem falar que não tinha a mínima idéia de quem era o guia...

Diário de Bordo
29/04/2004 - 15h00

Deixamos Brasília rumo a Delfinópolis, passando por Catalão, Araguari, Uberlândia e Uberaba, entrando em no Estado de São Paulo pela Via Anhanguera.

Fomos eu – Weimar Pettengill, André Felipe Matos de Carvalho e Christian Montalvão, todos ansiosos por enfrentar de uma vez o destino que traçamos. Logo depois do primeiro pedágio, já em SP, entramos rumo a Franca, e a seguir tomamos uma Balsa sobre o Rio Grande, chegando em Delfinópolis por volta da 00h00.

Ao descer do carro, o primeiro susto. Os termômetros nos obrigavam a colocar toda a roupa disponível. Do calor do Cerrado para o frio da Serra.

Encontramos o nosso guia e anfitrião, o Grande Silveira – Multibike (Ribeirão Preto), à nossa espera em um belo Copo Sujo, onde devoramos sanduíches e claro, uma dose de cachaça da terra, qui ninguém é de ferro, sô!

O próximo susto foi positivo. Fomos muito bem recebidos na pousada do Verri – Pousada Jardim da Serra. Uma bela estrutura e a boa hospitalidade mineira.



Mas alguma coisa estava errada. Todo aquele conforto era incompatível com o que havíamos planejado. Afinal, a condição do “passeio” era que portássemos em uma mochila de ataque tudo que necessitaríamos para os próximos 03 dias, à exceção das refeições.

O que levar? Água, com certa autonomia – mínimo 02 litros, roupa limpa e quente, chinelo, lanche de trilha, equipamento de manutenção da bicicleta – óleo, ferramentas, bomba, câmara sobressalente, protetor solar, primeiros socorros e o mais importante: creme para assaduras.

30/04/2004 - 09h00

O café da manhã ia muito bem até que o casal na mesa ao lado perguntou o que faríamos.

- Pedalar, claro. 
- Mas com quem? Insistiu o casal. 
- Com o Silveira....(pausa) silêncio mortal!

Nós conhecemos o Silveira lá de Ribeirão. Ele é desumano! Disse a moça.

Digo a você, não é uma boa informação de se obter minutos antes de seguir alguém com tal reputação. Já assustado, fui com o Silveira – ele mesmo, dar uma espiada na Serra que nos aguardava.

Uou! O trem é grande bissurdo, sô!

Saímos às 10h00 rumo à Serra Preta, ainda sem ter a menor ideia do que aconteceria. Fato que se repetiu até o fim da aventura!

Enquanto nosso carrasco, ou melhor, nosso guia se gabava de que no negócio dele, paga-se por x e leva-se x+y, numa louca variante matemática, descobríamos metro a metro que a quilometragem proposta era uma mera referência, e que íamos pedalar muito mais!



Pois bem. Vamos ao pedal. O lugar é majestoso. O visual incrível. Uma subida mais íngreme que a outra, e às nossas costas o Rio Grande com uma represa enorme. Depois da primeira subida intensa – gastamos cerca de 02h00, passamos pelo Condomínio de Pedras, formações de campo rupestre, e entramos em um vale muito bonito, mas puro areião. Daqueles que a roda afunda e não há perna que segure o giro. Pára e empurra. Pára e empurra. Que saudade da subida.



Foi depois do primeiro Dow Hill que o negócio pareceu um passeio. Também foi a única vez! Paramos em uma cachoeira para um belo banho, e conhecer melhor nossos companheiros de viagem: Cacaio, Fábio Figueiredo e Marcola, todos de Ribeirão Preto. E também para apreciar nosso próximo objetivo: o Caminho do Céu. Uma subida de aproximadamente 05 km que frita suas coxas nos primeiros cinqüenta metros. Contei exatamente 1.753,489 subidas depois dessa, mas como não tinha bola de cristal, fiz muita força para zerar a criança. A satisfação, no final, foi recompensada por uma visão inacreditável de campos de altitude cercados pela Serra Preta, agora à nossa direita, e a Serra da Guarita – apelidada pelos mineiros presentes de Serra da Gurita, onde vai dar o Caminho do Céu. Depois de muito sobe e desce, alguns lugares impossíveis de pedalar, chegamos em uma porteira e mudamos o rumo 90º em relação à Gurita.



Disse então nosso amigo Cacaio que, certa feita, perdidos nas gerais, encontraram um matuto que curioso com a aquela reunião de gente estranha, logo assuntou:

- Ocês gosta de renuí dês jeito?

Então virou lema da empreitada. Vão renuí pro retrato!

Dali avistamos a Serra Branca, nosso próximo grande objetivo.

Deles quero dizer. O meu era o almoço. Passava das 15h00 quando começamos um dow Hill rápido e perigoso, com muitas valas e aquele cascalho solto, onde o freio parece acelerar a velocidade. Resovi seguir o Fábio, logo atrás do Silveira. À essa altura, não sabia que o Fábio estava inaugurando uma Full Suspention Trek Líquid.



Só fiz questão de destacar a marca para que ninguém a bordo de uma hard tail cometa tal insanidade. O jovem amigo engolia as valas como se estivesse no asfalto, e eu tomando cada susto... E sem a menor condição de saber o que estava acontecendo atrás... vez em quando ouvia aquele barulho de freio no cascalho, no pé do ouvido. Melhor acelerar também!

Logo adiante, duas opções: com emoção ou com pouca emoção. Nem precisa perguntar. Eu, Cristian, Fábio e Silveira nos embrenhamos em uma descida de pedras grandes e soltas, sempre revezando a liderança da carreira que se instalou no local. Parecíamos loucos morro abaixo. Até que um sopro de consciência atingiu o Christian, e em seguida a mim. Não deu tempo de pegar o Fábio e o Silveira pois já estavam lá em baixo... MUITO BOM!

Meu bom humor acabou logo em seguida. Cadê a comida, Silveira?

Eis que repentinamente chegamos no paraíso. A casa da Vanda. Diz ela que não põe placa na estrada porque na casa dela só vai amigo e convidado. É o point de motoqueiros, jipeiros, caminhantes e claro, MTBikers. Casa simples, com banho quente, suco sem igual no mundo e uma bóia mineira que só de lembrar minha boca enche d’água.



Acreditem, até então cumprimos apenas 51,45 km, dos 95 km combinados para o dia, e já eram 16h00.

Comecei a me preocupar. Almoçamos como se fosse a última refeição. Arroz, feijão, macarrão, carne de porco. O que surpreendeu muito foi, naquele lugar, distante de tudo, comer salada de alface com rúcula, tomar coca-cola e gatorade, trincando de gelado.

Pra arrematar, doce de leite em pedaço, café e uma siesta merecida na cama emprestada da pousada. Vinte minutos de descanso, 17h00 no relógio.

AINDA SEM ENTENDER NADA, rumamos para a Serra Branca. A barriga cheia parecia colaborar com a gravidade. Peito no guidão da magrela e muita força para subir, degrau a degrau, uma laje com inclinação de uns 40º, creio eu. Gastamos cerca de 01 hora para alcançar o chapadão no alto da Serra Branca, e subíamos enquanto o pôr-do-sol fazia o espetáculo à nossa esquerda. Daqueles inesquecíveis.



Já com o frio castigando e a noite declarada, paramos para ligar as lanternas e colocar os casacos de frio. Que pareciam não adiantar nada.



Começamos então uma louca fuga, achando que era só acelerar no chapadão para terminar logo aquele sofrimento. O pelotão logo se esfacelou, uns correndo, outros caindo, todos sem ver quase nada.

Mas esse cenário dantesco só permaneceu por uns 15 km, acho. Chegamos ao Rolador, uma descida do chapadão para o vale onde se localiza a cachoeira Casca D’anta, do alto de seus 186 mts, no paredão oposto. Com a lua quase cheia era possível admirar o fiapo d’água desprendendo na nossa frente, diretamente da Serra da Canastra.

Nesse momento comecei a entender. A dimensionar o tamanho da roubada que nos metemos. Tentando dizer ao Silveira que ele havia seguramente errado a mão, ouvi que aquilo que estávamos fazendo era um desafio. O Desafio da Canastra. Nesse momento entendi que ninguém tinha certeza de que chegaríamos ao destino – São Roque de Minas (muito embora meu destino pessoal fosse o inhoque de mandioca do hotel Chapadão da Canastra).

Já passavam das oito da noite quando uma sucessão de quedas nas valas entocadas na escuridão começaram a minar a determinação de alguns. Nosso companheiro Cacaio, já meio sem paciência, deixou sua bike plantada em uma vala e tentou alçar vôo, numa tentativa de chegar primeiro que o grupo. Nem chegou a decolar e saiu catando cavaca morro abaixo, tal e qual uma gazela, procurando um pau de árvore para parar o movimento gravitacional, meio sem sucesso.

Ali sobrou pra todo mundo, cada um querendo comprar um terreno com vista melhor. Acho que o pior foi o meu, parado. O pé não saiu do pedal e um tombo besta esticou toda a musculatura da coxa. Precisei de alguns minutos para impedir as câimbras que ameaçavam dominar o corpo inteiro.

Depois do despenhadeiro do Rolador, muito sobe e desce – muito mesmo, chegamos em Vargem Bonita. Uma parte do pelotão, exausta, seguiu para São Roque de Minas em uma camioneta alugada, enquanto Cacaio, Silveira, Fábio e eu (de tinhoso), enfrentávamos os últimos 17 km da jornada. Chegamos ao nosso destino às 22h40, cansados, mas com aquela sensação de dever cumprido, totalizando 108,52 km, 09h02 de giro, média de 12 km/h, 12h40 de atividade e 3.834 mt de ascensão.

Ronilda. Guarde esse nome e o telefone do hotel Chapadão da Canastra. Ligue antes e conheça o que é a hospitalidade mineira em ação. Um banho quente seguido de um verdadeiro banquete, cuja estrela principal é um prato de inhoque de mandioca que nunca conheci melhor.

E cama!

01/05/2004 - 10h00



Depois de um café da manhã inacreditável, com todas aquelas guloseimas mineiras, perna pra quem te quero.

Mas antes tivemos que derrubar o Capitão FraFra da cama, que se negava a subir de novo na sua bicicleta.

Sinhora d’abadia, como sobe!

É humilhante sair do hotel empurrando a bike. Mas ninguém se atreveu tentar subir a ladeira pedalando. E ainda estávamos na cidade.

Meu joelho direito começou a latejar nos primeiros metros, provavelmente por ter rodado muito no dia anterior com o banco 01 cm mais baixo do que o ideal. E ainda na cidade comecei a delirar, achando que não daria conta.

A melhor expressão para designar a subida para a portaria São Roque do Parque Nacional da Serra da Canastra é mineira, e pronuncia-se como se lê:

É um trein disbasiadin di tudo, sô!

E esse dia que era para ser light, apenas uns 50 km pra soltar a perna, transformou-se rapidamente numa caça ao Silveira. O danado sumiu com todo mundo e só fomos nos reencontrar na nascente do São Francisco.



Com direito a uma amostra de como é o Silveira que aprendemos a admirar. Tomando água na nascente do São Francisco, cada um do grupo recebeu dele um presente, que manterá viva as lembranças do Desafio da Canastra. Saúde, Paz e Humildade. Amizades seladas em aventuras como esta jamais serão esquecidas.

Depois do descanso, força. Um chapadão com incontáveis subidas, muitas vencidas empurrando a bicicleta, todo mundo dolorido, o cansaço na mesma proporção do calor e do sol forte.

Ops! Já ia esquecendo. Molhar a bermuda de ciclismo é um ato insano. Então, dois corajosos aventureiros, sedentos por um banho de cachoeira, devidamente vestidos com a roupa que chegaram ao mundo, iam saindo da água gelada quando ouviram um barulho de carro, e voltaram correndo para o banho de pingüim. E nada de carro. O motorista, desavisado, vinha sem pressa. Dois graus antes de virar picolé, o carro finalmente passou e, num ato de total discordância, o motorista se pôs a observar os dois marmanjos tomando banho pelados, naquela água fria. Dizem as más línguas que chegou a comentar algo sobre a mudança da flora e da fauna da Canastra ultimamente!

E não foi só! Ainda teve barbado correndo pelado de sapatilha no meio da estrada... pose pra foto de revista... sei não, cada louco com sua mania!

Os últimos quilômetros foram de um pega pra capar. Levemente inclinado no começo, os últimos seis quilômetros são rápidos, finalizando com um dow hill kamikaze, na portaria do parque que fica nas imediações de São João Batista da Serra da Canastra.

Chegamos então na Pousada da Serra, a toca do Animal. No meio do nada, uma pousada muito bacana, perfeito para um merecido descanso. Com uma cachoeira belíssima nos fundos da casa.

E se o seu negócio é trilha pesada, à pé, de bike ou de 4x4, procure o Animal – Ricardo, da Guia-Mor. Ele conhece a região como a palma da mão e tem uma senhora estrutura. Além de tudo, pedala muito – creio que o apelido vem das bikes. Segundo ele são os quadros que não são bem feitos, racham com certa facilidade... vale conferir.

Realmente e inexplicavelmente esse dia foi light, totalizando 51,03 km de percurso, 04h05, média de 12,4 km/h, máxima de 56,5 km/h e 995 metros de ascensão.



Aí foi correr pro Vicente, tomar uma cervejinha, comendo queijo e tomate temperados e uma lingüiça da boa. E ainda conhecemos a Dona Ana, essa aí da foto, que dizem ter mais de 120 anos. Uma simpatia de olhos azuis.

Depois banho, almoço / jantar e cama, às 20h00.

02/05/2004 - 08h00

Nessa altura do campeonato, e já sem confiar no odômetro do Silveira, os incrédulos – incluindo eu, começaram a questionar a viabilidade de fazer os 105 km restantes em 06 horas como nosso guia afirmava ser possível. Se os primeiros 100 km foram cumpridos em mais de 10h00, difícil acreditar na proposta.

A conclusão que cheguei é que nosso amigo Silveira não consegue gravar números do odômetro, mas é muito bom com relógio.

Explico. Os 105 km que ele falou viraram rapidamente 114,6 km. Finalizados em 05h49, com média de 19,7, máxima de 67km/h e 672 m de aclive.

Um verdadeiro GP instalou-se no pelotão assim que entramos de volta no parque, com direito a escapadas e buscas num chapadão plano, com poucos aclives e declives. Até a portaria de saída do Parque rumo a Sacramento, a única parada foi para fotografar uma jararaca que tomava sol na estrada.



Uma vez fora do parque, dentro de uma área de reflorestamento, a disposição do pelotão continuava, motivada pela mamãe ganso e pela penélope charmosa, com sua meia calça branca reluzente.

Na Serra das Sete Curvas, outra parada para fotos e um visual muito bonito. “E solta o freio, que aqui tá quente!” Parece que descemos para um caldeirão. O Céu abriu e o sol castigou. A falta de vento parecia contribuir para cozinhar os corajosos pedalantes.

Neste ínterim, descobrimos inclusive uma nova região do corpo humano, até então desconhecida pela ciência, a qual fora batizada de Rébbts pelo Ilmo Sr. Cacaio. Tal região localiza-se logo acima do banco da bicicleta, entre as pernas do pedalante. Cria vida própria depois dos primeiros 100 km e passa a acompanhá-lo, sempre dando sinal de vida, até que você desista, ou consiga chegar de volta a Delfinópolis.

Banho, macarrão e mais 02 horas na fila da balsa encerraram nossa aventura em Minas Gerais, e logo mais às 04h30 da madrugada do dia 03/05/2004 pisamos novamente no DF.



Vencemos o desafio, superamos dores, administramos o psicológico. O companheirismo brotou no amigo que se prestou de farol para iluminar o caminho de outro cuja bateria do farol arriou. No pão-de-queijo com queijo, dividido com quem saiu sem comida. No aleijado e aleijadinho, que juntaram as forças para completar o percurso. Nas novas amizades e nas lembranças que seguem com cada um de nós.

Weimar Pettengill
Brasília, 03 de maio de 2004

Comentários

ALESSANDRO disse…
Interessante, li isso a primeira vez em 2004 ou 2005 não lembro... Na época morava em Brasília e sonhava em pedalar na Canastra, hoje estou em França, e direto pedalo nesse lugar, minha saudade hoje é Pirenopolis.
Boa viagem.
AFelipe disse…
Weimar, meu amigo! Conserve sempre essa nossa grande aventura no seu site! Hoje, graças a ela, mostrei ao meu filho Miguel um pouco desse nosso lado aventureiro!

Um grande abraço,
André Felipe

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