Brasil Ride 2012 - Stage 2



Ecosport de testemunha da largada em Mucugê. 

O segundo dia do Brasil Ride, desde sua primeira edição em 2010, é o grande vilão na cabeça de todos os atletas. E não é por menos. São cerca de 140km, com quase 3.000m de ascensão. Já foi considerado pelo Velonews, site americano especializado em ciclismo, segundo a opinião de Jason Sumner, o estágio mais difícil de todas as ultramaratonas do mundo.

No primeiro ano sofri mais que imaginava pelo tempo de exposição. Meu parceiro “quebrou” logo nos primeiros quilômetros e nos arrastamos por horas a fio, sob chuva tão intensa que dizíamos: chove de balde, tamanha a quantidade de água, e lama, que enfrentamos durante quase 12 horas.

Os atletas da Sisco, na categoria Empresarial do Brasil Ride

No segundo ano, o problema fui eu. Até hoje não encontro uma explicação satisfatória, mas um punhado de triste coincidências que, juntas, me levaram a passar momentos terríveis. Já aos 70km uma cãibra insana percorria todo o corpo, saltando da coxa para o abdômen como se um álien quisesse se libertar empurrando a pele em contrações insuportáveis. Foram mais de 12 horas sob um calor indescritível, que obrigou inclusive à organização deixar de cortar os participantes com mais de 12 horas de etapa. Sofri tanto que, confesso, passei um ano inteiro pensando nesse dia, e no que faria para exorcizar dois anos de lamentáveis participações nessa etapa do Brasil Ride.

E fiquei abalado ontem no briefing, quando a organização informou sobre a escassez de água na região. Em alguns lugares, há mais de um ano não chove. O gado é o primeiro a sofrer, e morrer, mas tivemos notícias de pessoas sofrendo com a falta de água, a ponto do evento, em solidariedade, racionar água da melhor forma possível. E incêndios, que tomam a chapada nos últimos dias, juntamente com os alertas do Dr. Clemar (chefe da equipe médica do evento) sobre a necessidade de hidratação constante e acima no normal, já que esperavam temperaturas da ordem de até 48° nas regiões mais áridas.


Bart , primeiro medalhista olímpico do MTB, depois de uma queda! 

Mas o que vivemos hoje pode ser considerado um verdadeiro milagre: largamos às 06h, pontualmente, sob céu nublado e, pasmem, garoa. Que nos acompanhou por boa parte do dia. No asfalto da largada, no estradão de areia nas Gerais, no primeiro down hill, na sequência de serras incluindo a temida Vixe Mainha, que nos levou à Piatã - terra do aclamado melhor café do Brasil - onde a temperatura estava em torno de 17°, e caindo. Perfeito para uma segunda-feira!




De lá em diante, embora nublado em boa parte do tempo, era possível acompanhar ao fundo uma chuva densa que caia insistentemente, tornando a vida do sertanejo um pouco menos sofrida. Ah! Claro. Alívio para nossa vida também, pois ainda faltava sobreviver ao Vietnan (km 102) - famoso complexo de trilhas técnicas em meio à mata, com acentuada inclinação, e para finalizar a Faixa de Gaza - uma subida totalmente íngridi, como diria o matuto, que começa no km 132, extendendo-se por cerca de 12km.

Por essa razão climatológica, e todas as outras possibilidades cuidadosamente pensadas, posso dizer que afastei o bicho papão do BR Second Stage. Acompanhado de uma lição de vida dada pelo meu parceiro Fabrício Bezerra, 10 anos mais experiente que eu, que soube administrar seu sofrimento e suas cãimbras, e nos permitir um passo constante, que nos fez terminar a etapa bem antes da hora de corte, comemorando e gritando aos quatro ventos do alto da serra que protege Rio de Contas: Não temos medo de você, segundo dia. Que venham os próximos.

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