Espinhaço do Chicão - Canionismo


Publicado na Revista T - set / 2012

Pisar onde nunca ninguém pisou. Essa foi a proposta que recebi da Cerrado Aventuras, uma agência de ecoturismo e turismo de aventura sediada em Pirenópolis, que frequentemente organiza expedições extremas com o propósito principal de colocar os guias em situações limites sob diversos aspectos, buscando o condicionamento, a tranquilidade e o racional nas operações com turistas no dia-a-dia. São saídas de um grupo seleto, que só participam os que demonstram habilidades para estar ali, afinal espera-se o pior.



Apenas 120km em linha reta - 300km pelas estradas — separam a Capital Federal do local escolhido, um platô a 1.200m de altitude no norte de Goiás, município de Niquelândia, próximo a Água Fria. Um canion fabuloso afasta o homem e cria um reduto de vida silvestre protegido por paredes verticais de até 500m de altura, em um cenário monumental. São, na verdade, milhares de possibilidades, virgens. A agricultura vai até onde o solo permite, e o resto é assim, desde sempre, remoto.



Ambiente hostil, serpentário natural, assombrado pelos matutos locais com seus causos de onças. É conhecido na região por Espinhaço do Chicão, e algumas poucas cachoeiras são acessíveis. Mas nosso projeto era procurar justamente as outras!


Depois dos longos treinos de preparação para o Brasil Ride no final de semana, comecei a dobrar plantão para conseguir um alvará de 54h. E foi assim, extenuado, que deixei Brasília à meia-noite, para 04h de carro. E quando a viatura parou por absoluta impossibilidade de continuar, desci, coloquei o isolante térmico e o saco de dormir sob o holofote da lua, e desliguei a chave geral por 1h30. Quando acordei do bivaque (nome que se dá ao ato de deitar e dormir, onde quer que esteja, sem qualquer abrigo), o sol parecia incendiar o horizonte despejando sobre a vegetação, meio caatinga, um vermelho incrível.


Deixamos o local prontos para qualquer coisa. Já com as roupas de neoprene, e na mochila todo o equipamento de canionismo imaginável, comida e disposição: tudo que precisaríamos para sobreviver de forma autônoma nas próximas 48h. Às sete da manhã encontramos, eu e o Fabiano Nardoto, o restante da equipe que havia feito uma precursora na região no dia anterior, e escolhido as melhores rotas para encontrar os piores lugares. 



Confesso que quase não sobrevivi à primeira caminhada de abordagem. O que deveria durar 40min, consumiu 2h de caminhada em ritmo forte, rasgando mato, subindo e descendo pirambeiras inacreditáveis, o corpo queimando em brasa dentro no neoprene, e a mochila pesada nas costas. A água gelada da cachoeira, enfim, foi o único remédio.


Mas o primeiro trabalho vertical do dia, um rapel na cachoeira de água cristalina, mudou o cenário e a temperatura. A partir de então, antes que o corpo experimentasse o super aquecimento, a água fria restabelecia os ânimos. Dezenas de mergulhos, paisagens de filme. Cachoeiras, corredeiras, paredões de pedras literalmente rasgados pela água. 



E conseguimos algumas proezas, como inverter o dito popular: agora tudo que desce, sobe. E muito. Assim que descobri a intenção do Guilherme Pelegrini Predebon, o Chuck, líder da expedição. Na verdade, a nossa missão era explorar três canions, e para isso era preciso subir novamente. Escolhemos uma grota seca e começamos até com certo conforto, a escalada. À medida que subíamos, saindo da mata fechada, pude perceber a meta ambiciosa: à direita, uma parede de rocha podre (quebradiça) e suja (mato). À esquerda, uma parede ainda maior, estimo aproximados 300m de desnível, nossa única chance de fuga. Deixamos a grota seguindo o rastro de uma avalanche de pedras, recente, que abriu uma clareira na mata ciliar. Enquanto subia pude ver com mais detalhes a grandiosidade do lugar, e a escalada quase vertical que nos aguardava.


Uma única rota, vista de baixo, parecia viável. Cerca de um metro de largura, com trechos verticais, de escalada no capim - essa é nova até pra mim, com perdão do trocadilho. A terra se soltava enquanto mãos e pés tentavam se firmar, sempre preocupado com os que vinham atrás. Vez por outra, o companheiro da frente gritava “pedra”, e o sufoco era geral.  


Mas confesso que o pior ainda estava por vir: ao me deparar com algo se mexendo, a 15 centímetros do rosto na parede vertical, por pura curiosidade, afastei o capim e me deparei com um buraco. Os olhos demoraram alguns instantes para ajustar o foco mas a informação rodou o corpo imediatamente, naquele calafrio que “arrepia o espinhaço”. Dentro da cavidade havia uma cobra, me pareceu ser uma cascavel, com a couraça escura que salientava a listra branca, em total camuflagem com o capim seco. Só quando já estava com a câmera fotográfica nas mãos, ainda dentro da caixa estanque, é que pude raciocinar sobre o quadro. Não pude ajustar a máquina, a foto saiu de qualquer jeito, e eu liguei a tração no módulo “Calango Apavorado no Cerrado”. Tentei falar “cobra” com a maior naturalidade possível para os cinco companheiros que vinham atrás, morro abaixo, e só respirei uns cinquenta metros acima, já em um mirante, de onde avistamos uma cachoeira majestosa, nosso próximo alvo.



E as horas correram exatamente assim. Um susto, um presente. Um salto de 10m em um poço desconhecido, e uma cachoeira de 70m. Um sapo venenoso, e um poço tipo jardim japonês, de água cristalina, esverdeada, onde a alma pede para sentar e ficar. Quando escureceu, escolhemos uma margem do rio formada por um pouco de areia e seixos, relativamente plana, tiramos os neoprenes molhados, colocamos roupas secas, e dividimos uma sopa de verduras com shitake (eu que dispenso sopa e nem gosto tanto assim de cogumelos, nunca experimentei nada tão saboroso!). 

A lua cheia nasceu, iluminando a garganta de pedra e mato, e o acampamento improvisado silenciou-se — do ponto de vista humano, enquanto a festa na floresta seguia à mil. Eram tantos barulhos diferentes, alguns tão próximos do acampamento, que ativavam o consciente. Me lembro de acordar várias vezes, umas por uivos, outras por corridas nas folhas secas sob a copa das árvores. Por absoluta falta de espaço, cada um levou apenas uma manta térmica. Protegidos pela fragilidade do papel alumínio, dormindo no chão duro, cheio de pedras, mas ambientado, pensei no óbvio solenemente ignorado em tempos modernos: precisamos de pouco para viver.

Quando a alvorada do segundo dia despertou o acampamento, continuamos por um trecho de pula-pedras, e uma hora mais tarde saímos do leito do rio para mais uma seção de escalada, primeiro na mata, com muito capim-navalha, unha-de-gato e espinhos, e depois já no cerrado, com vegetação rasteira e muita pedra. 

Eram 10h da manhã, aproximadamente, quando torci o tornozelo, em um movimento agravado pelo peso da mochila. Com os tendões luxados e sem condições de firmar o pé direito, me vi obrigado a deixar o grupo principal e seguir aproximadamente por 15km rumo a única rota de fuga possível, escoltado por três companheiros. Fui resgatado pelo grupo principal às 11h da noite, em meio a uma estrada que liga nada a lugar algum, depois que conquistaram a última garganta do projeto, e às 03h da madrugada estava em casa, finalmente tomando um banho e me preparando para voltar ao trabalho às 08h da manhã. Quebrado, mancando, o corpo todo arranhado e ainda cheio de espinhos, mas com a alma mais forte que nunca, no verdadeiro sentido do “empeno mas não quebro”, com a certeza que em alguns dias estarei pronto para outra.




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