Kalungas


Mountain Bike Trip
Publicado na Revista T em set / 2012

Ivam Melo, Coroas do Cerrado - Atravessando o Rio Corrente GO/TO.

Desde que comecei a conhecer o universo da bicicleta, há mais de 15 anos, viajar ganhou um novo sentido. Já era familiarizado com o vento no rosto e a sensação de liberdade que a motocicleta proporciona, mas ao trocar o capacete fechado pelo aberto, a roupa pesada — casacos e botas — pelo mínimo possível, parece-me que de fato abriram-se novos horizontes.

E nesse processo, descobrir onde suas pernas podem levá-lo é revelador. Do susto inicial com a proposta de vencer longas distâncias ao sorriso maroto, pueril, da primeira conquista, percebo que a bicicleta invade por osmose nossas vidas, e tenho lá minhas desconfianças se não provoca transformações genéticas, inclusive hereditárias. 

Céu Kalunga - nunca testemunhei algo parecido.

E há um momento de certa magia, em todas as empreitadas: as pernas giram, a mente voa. Conectados mas desconexos. São sonhos, sensações, revelações, pensamentos criativos, quase um divã. Mas confesso que de uns anos para cá a imagem bucólica de paisagens vividas e vencidas em velocidades baixas, com estímulos aos cinco sentidos, tem sido incrementada.

A receita é simples, e a cada dia mais pessoas têm a oportunidade de experimentar. Aliviar ainda mais o peso do “camelinho”, sacar alforjes, dispensar barraca, isolante e saco de dormir. E ganhar velocidade. E aprender a cada dia um pouco mais da cultura do essencial.

Travessia da Foz do Rio Alma, com o Rio Paranã.

O que não significa passar necessidade, veja bem. As coisas boas da vida são sempre comemoradas, ainda mais depois de passar dez, doze horas pedalando por montanhas e vales, rios e chapadas. Comer bem, e dormir melhor ainda: a regra de ouro jamais dispensada na rotina diária.

Assim foram as últimas quatro incursões aos Kalungas, comunidade quilombola instalada desde o Brasil Colônia no Sertão Goiano, fazendo do tripé Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre as referências urbanas de um Brasil rural, de subsistência, encravado entre serras, preservando nascentes, vivendo ainda da caça, da pesca, do pastoreio e de algum cultivo, principalmente milho e mandioca.

Capitão José Roberto Ema do Cerrado, sorriso inevitável: Atenção Seu Mandioca!

Apenas 300 quilômetros separam Brasília, Patrimônio da Humanidade, de casas de adobe há séculos integradas à mata, de onde alguns jamais saíram. O trânsito só é possível à pé, no lombo de burros, e agora de bicicleta, percorrendo trilhas históricas, caminhos abandonados, onde cada família tem sua área demarcada por pontos naturais, como grotas, rios e várzeas.

Em um esforço para introduzir o turismo como fonte de renda à comunidade, envolver os jovens com uma atividade econômica e assim tentar frear o êxodo, contratamos guias kalungas e a Suçuarana - agência de ecoturismo de Cavalcante, para montar acampamento ao lado de cachoeiras, e preparar a recompensa diária: churrasco e cerveja às 18h, rodízio de massas e vinho tinto às 20h. Conversas, causos kalungas e causos “bicicleteiros” animam as rodas de conversa fiada até que a noite caia, o céu se ilumine e o corpo desmonte, ávido por um merecido descanso, repondo energias para a próxima etapa.

Paulo Germano, ao fundo o Dedo do Muleque.

Com a última viagem, no mês passado, mapeamos 570 km de trilhas, estradas boas, ruins e ótimas - as abandonadas, claro. Circulamos todos os caminhos possíveis, os principais acessos, radiografamos o Vão de Almas, e as encostas do Vão do Muleque, grafado assim mesmo, já na divisa com o Tocantins. Temos o mapa da mina, conhecemos o caminho do ouro moderno, que leva renda com o turismo e extrai fotos, vídeos e momentos inesquecíveis, que tenho prazer em compartilhar contigo no www.desbrava.com. Vamos?


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