BMW GS Trohpy - South America

Publicado na Revista Tabu - 2013
Crédito Fotos: Ramona e Herbert Schwarz

Dear Mr. Pettengill,
Congratulations! You have qualified yourself by your outstanding performance at the GS Challenge 2012 in Brazil for the BMW Motorrad Int. GS Trophy 2012 in South America.
We are looking forward to welcome you on the 24th of November in Chile.
For any questions you may have you are very welcome to contact as at any time.
Best regards from Munich,

BMW Motorrad
The Motorcycle Division of the BMW Group 
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Bayerische Motoren Werke Aktiengesellschaft

Uma das etapas especiais era fazer uma foto criativa para votação pela internet. Essa foi a do Team Brasil, a vencedora com mais de 14.000 votos.

Voltava de São Paulo sozinho, com a moto na caçamba da camioneta, quando entrou a mensagem acima, dando as boas vindas ao BMW GS Trophy. Depois de dois dias exaustivos de provas em um circuito de moto trial na Fazenda Cascata em Votorantim, com várias provas físicas tais como canoagem e escalada, organizada pela BMW Brasil para selecionar os 03 pilotos e 01 jornalista mais hábeis para lidar com “obras de arte alemãs”, carimbava meu passaporte para uma aventura que nem nos sonhos mais ousados havia cogitado participar.

Desembarcamos em Santiago - Chile, onde encontramos os outros representantes de 19 países, para uma semana épica. Aproximadamente 100 pilotos embarcaram no voo para Temuco, uma excitação sem limites. Ninguém sabia ao certo o que encontraríamos.



Encontramos um oásis perto de Pucón. Um pátio com 60 BMW GS 800 e outras 40 GS 1200 Rallye, zero quilômetro. Me peguei de boca aberta, meio bobo mesmo, quando vi o primeiro lote de 04 unidades, com a bandeira do Brasil e meu nome adesivados em uma delas.



Na dúvida, liguei pra minha mãe, e perguntei sobre o meu primeiro aniversário. Ganhei muitos presentes, confirmou, mas nada parecido com a mala de viagem ao lado da “minha” GS, imediatamente batizada de Juanita Miguel Pablo Perez de La Quera, minha Chica Guapa. Ainda hoje descubro presentes em meio à bagagem. Barraca, saco de dormir, isolante térmico, head lamp, câmera full HD, casacos, camisetas, roupa completa de rally, enfim, tudo que um menino, quer dizer, um homem, precisa para ser feliz durante uma semana.



E o lendário Tomm Wolfe, em pessoa, nos deu as boas vindas:

  • "Vocês vieram até aqui para uma semana inteira de diversão e camaradagem. Ninguém dirá para andar devagar, ou diminuir o ritmo. Nos próximos dias essas motos devem ajudá-los a fazer tudo que sempre sonharam, atravessando desertos, a Cordilheira do Andes e suas montanhas, lama, rios, trilhas vulcânicas e estradas de rípio. Se acaso você destruir sua moto, ainda que no primeiro dia, não haverá conta para pagar. Receberemos a chave, se houver, agradeceremos com um sorriso, e o colocaremos no próximo voo para casa. Portanto escolham o dia mais apropriado se essa for sua intenção. Só temos uma única regra: siga as orientações do Marshall."

Na largada do primeiro dia fiquei assustado. Andando a 60 km/h na primeira estrada de rípio, me sentida sobre um mar de bolinhas de gude. Via os barrancos em uma aproximação rápida e descontrolada demais, e várias vezes fechei os olhos, esperando o impacto. 



Ao chegar na primeira cidade para o abastecimento, Villa Rica, nosso Marshall desculpou-se: — Pegamos o caminho errado. Deveríamos estar do outro lado do Vulcão. Desculpe-me. Vamos retornar.

Sem problemas, pensei. Mas quando entramos novamente no rípio, o velocímetro marcava 170 km/h, com uma frequência assustadora. Mas se o guia está fazendo as curvas, tem que dar! 

Não me pergunte como. Aprendi fazendo. Pura repetição. Algumas vezes baixei os olhos para o painel digital, para me certificar que estava na sexta marcha, e acelerei até o final do curso, enrolando o cabo até travar, certamente beirando os 200 km/h no cascalho, nas florestas, com barrancos ou precipícios ao lado. Jatos de adrenalina em quantidade suficiente para compartilhar por anos, ainda hoje fazendo efeito. Aqui escrevendo esse relato, só de relembrar as curvas fechadas com a moto escorregando sob as pernas travadas no tanque, minhas mãos ficam úmidas de suor - e o sorriso reaparece, magicamente! 



Rejuvenesci 28 anos. Voltei aos 13 anos de idade, quando subi pela primeira vez em uma motocicleta e comecei a descobrir quanta diversão há sobre duas rodas.  Ainda que houvesse disputa, o clima do Trophy é de confraternização. Todos ali para um fim maior: memoráveis momentos descobrindo o verdadeiro propósito da sigla Gelände Straße, ou simplesmente GS.

O time Brasil era composto pelo Luciano KDra (ESPN), Aloísio Frazão e Marco Dedini de SP e eu, de Brasília. Levamos um tempo para entender que representar o nosso país e competir era um mero detalhe do evento. Participar é o grande prêmio. A cada dia um novo sorteio, um marshall e dois países compartilhando paisagens de tirar o fôlego. Andamos com os argentinos, os alemães, os ingleses. Ainda hoje meu facebook pipoca uma mensagem em japonês, seguido de um pedido de desculpas, e a mensagem em inglês convidando para uma viagem de moto na Rússia. Ou um novo amigo, sabendo que estou na Argentina, oferecendo sua casa em San Martin de Los Andes. 



No Trophy, depois de horas de pilotagem no limite, alguma prova especial. Como uma grande gincana, os testes variavam de provas de trial a rafting em corredeiras incríveis no sul da Argentina. De atravessar rios empurrando as motos a carregá-las nos braços sobre um um tronco araucária caído, com um metro de circunferência. De resolver problemas elétricos em uma moto a vencer uma praia de areia vulcânica, a moto afundando até a suspensão dianteira se paramos de acelerar. 

 


A hospedagem durante o evento é sempre em barracas. Em campings incríveis, ou em uma fazenda aos pés do Vulcão Lanin, pouco importa. Em que pese o desconforto para quem não está habituado, o melhor da gastronomia chilena / argentina nos aguardava no final do dia. Com respectivos vinhos, claro, sabores extras os 2 mil km percorridos na semana, saltando do Chile para Argentina, conhecendo o que há de melhor na Patagônia.




Uma nota final: Não perca tempo procurando no dicionário alemão o significado de GS. Compre uma. Peça com carinho e ela, aos poucos, vai te contar a tradução, ao pé do ouvido. Às vezes na sombra de um vulcão, noutras atravessando desertos. Aliás, ela adora contar segredos quando o sol nasce, e você acelera. Ou quando pára, ao pôr-do-sol, para apreciar e agradecer. Eu pretendo ter muitas confidências com a minha, enquanto me preparo para outra seletiva, em 2014. Ouvi dizer alguma coisa sobre a Mongólia...



Nota da alma:



Aos 13 anos tinha na parede do meu quarto um pôster do belga Gaston Rahier, gigante do Paris Dakar, vencendo o mais temível de todos os desafios modernos, a bordo de sua BMW R80 G/S. Pois acreditem: o Presidente do Museu BMW tirou a moto do belga da exposição, e fez o Trophy com a mesma moto que tantas noites fez uma criança sonhar, olhando para a parede. Refiz a foto da minha infância, sentado na moto autografada. Essa emoção nunca mais esqueço.



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