BC Bike Race 2014 - The Ultimate Single Track Experience

7 Insanas
Estágio 3
British Columbia, Canadá

O prólogo acontece nas lendárias trilhas de North Van - Sonho!

A Stage Race mais bonita do mundo. Definitivamente essa frase me chamou a atenção. E ouvi de 4 cantos diferentes do planeta. Como assim? Me perguntava, imaginando uma prova com 70% de single track. Mas no Canadá só tem floresta e urso! Será mera propaganda?

Foi pura curiosidade que me fez incluir a BCBR nos planos das 7 Insanas. E desde o primeiro contato, o tom dado pela organização surpreende pelo bom humor e presteza com que atendem os ciclistas.

O bom humor é marca registrada do evento!

Antes, permita me apresentar. Não para me gabar, claro. Mas corri de motocicletas por aproximadamente uma década, em provas de rally, enduro e motocross. Me sinto muito bem com a velocidade, sobretudo com a tomada rápida de decisões, como escolha de linhas, leitura do terreno e... down hill. E há 15 anos, quando comecei a pedalar, tomei o primeiro capote: não se ganha corrida de bikes na descida. Você sobrevive à ela, defende-se no plano e ataca na subida. Há 15 anos sofro, tentando aprender a subir. Não é fácil, principalmente para quem gosta de... descer. Me considero mediano, mas várias vezes ouvi chamadas carinhosas do tipo: Seu louco! Você não tem juízo! Como você consegue fazer isso?


Com essas credenciais e dois dedos quebrados me apresentei em North Vancouver - Canadá, para a largada do BC em 2014 - e para confirmar que toda regra tem exceção: descer rápido aqui faz toda a diferença. Depois de me encantar com a revolução urbana promovida pela bicicleta em Vancouver, levei o primeiro susto. Era só o reconhecimento da prova, e me peguei travado! Descer aí? Ficou doido? A pista construída em meio à floresta é simplesmente incrível, nunca pilotei em lugar parecido. Os drops, insanos. Singles intermináveis, pontes, passarelas, rochas e raízes ensaboadas: - alguém passou vaselina, não é possível!


Parei. Acho que é hora de descobrir algo novo. Seiscentos atletas alinharam, divididos em 10 pelotões de 60, largando a cada 3 min. No primeiro dia, você escolhe onde quer largar. Dependendo do seu resultado, você ganha uma etiqueta na placa, indicando qual o seu pelotão para o resto da semana. Fiquei no segundo pelotão, mas realmente não entendi como. Briguei com a bike como se fosse a primeira vez juntos: - péra eu, sô! - num péro, dizia a magrela pra mim, abusada e escorregadia. Enquanto os canadenses me atropelavam no plano, sobre rochas e raízes. Como assim? Desaprendi? E a peia continuava...

E tem mais: todos os dias, durante o percurso, uma etapa denominada Enduro: escolhem um percurso simplesmente alucinante, cronometragem à parte, e despencamos para alguns minutos de pura adrenalina e, para mim, decepção. Descobri que sou um Mocó, Pau de Rato, Fiote, ou o que você quiser me chamar, que signifique neófito, júnior. Pangaré, aceito.



Abordo um drop, e à medida em que ele se revela, penso no pior: se eu errar, acabou a prova. Milésimos de segundo e pronto, passaram 5. Uai! Se eles vão eu também vooooooou, quer dizer, voo. Ah! sei lá, já estou no chão e já passaram outros 5.

Depois de um desses capotes cinematográficos, olhei pra cima do barranco e vi uma linda senhora de cabelos brancos, rosto marcado por rugas (deve estar na faixa dos 60, ou andou muito em estradas de terra). Sorriu para mim, e disse, pensativa:

Vou me poupar. Ainda temos uma semana inteira, esse é apenas o segundo dia. Desmontou e desceu escorregando.
Excelente ideia. Por favor, a senhora na frente.

Cá com meus botões, pensei: melhor ver como ela faz, afinal ela está na cabeça da prova! 

- Uai! Ela estava aqui, agora! Pra onde ela foi? Sumiu? Não a vi mais.


Depois vieram as árvores. Mata escura, sem óculos, parecendo noite. Fui providenciar um atalho, o guidão travou em uma árvore e bati com tanta violência na outra, que fiquei assustado.

- Ocê pode ser mais inteligente que eu, árvore do cão, mas mais forte ocês num é. 

Encontrei um barranco perfeito, quase vertical, cheio de valas e raíz, 6 metros de altura. Pedi ajuda à gravidade, embalei o quanto pude, perdi a frente propositadamente, escolhi o lado mais forte - o direito - determinei a vítima, quer dizer, a árvore - e dei-lhe a maior PORRADA que pude.

Ela nem se mexeu. Será que o Wolverine andou por aqui, injetou aquela parada sinistra  e usou justamente essa árvore para treinar? Foi a conclusão óbvia que cheguei após conferir a falta de um bife, no ombro. - Diaxo! Mais forte e mais mais inteligente essa árvore!


Mas no terceiro estágio consegui desvendar o maior caso de dopping genético da atualidade. Fiz amizade com um canadense, foi só pagar 2 cervejas e ele deu com a língua nos dentes: - quando você compra uma bike no Canadá e diz que fará o BC, eles implantam asas que se camuflam automaticamente nas costas quando um gringo se aproxima. Por isso descemos rápido! Agora entendi. Deve ser por isso que só tem canadense no pódium! Nico Fitzmeyer, por exemplo, diversas vezes campeão do Cape Epic, começou a prova em oitavo!

Queria ficar o restinho do ano escrevendo para você o que vivemos, mas para dar um tempo às florestas e poupar papel, vou resumir. O primeiro dia, nas lendárias trilhas de North Van, foi o melhor pedal da minha vida. Então o terceiro o superou, em Powell River. O problema é que Squamish atropelou o pelotão de melhores pedais da vida. E atacou, assumindo a liderança. E quando pensei que nada mais aconteceria, a floresta revelou Whislter. Perfeita!


É outro patamar. Não há etapas rainha no BC, e aquela loucura de 8h de força ininterrupta para atletas medianos como eu. São etapas concentradas, tipo lata de goiabada: curta e grossa. Nem por isso fácil. Aliás, para quem acha que gosta de singles, sugiro conhecer e, depois, emitir opinião. O problema é a logística: ferryboat, avião, ônibus. Barraca, hotel, transfers. Uma loucura! Passamos a semana sem estabelecer uma rotina única de horários. Isso é ruim, do ponto de vista fisiológico. Mas todo esforço será regiamente compensado, nas trilhas naturais e nas fabricadas artesanalmente com um único propósito: fazê-lo sorrir! O coração bate forte diante de drops incríveis, sem falar nos voos! A adrenalina invade cada milímetro do corpo e depois uma inexplicável sensação de bem-estar invade a mente. Você anda mais dois metros, e tudo se repete. E se repete. E se repete. E quando termina, você quer mais! - Tio, posso dar outra volta?



Flying Harbour Airlines

O BC foi fundado pela Harbour Airlines. Mas essa informação passaria batida. O problema é que, alguns dias antes de embarcar para o Canadá, recebi um e-mail dizendo que fui sorteado para um passeio de hidroavião na manhã do quarto estágio. Não dei muita atenção, aliás me preocupei. Mexer com avião, antes de lagar para a etapa? Vou nada.


O problema é que o dia começa com um transfer demorado e cansativo. Ônibus e ferryboat. Ou, no meu caso, hidroavião. Eu, que nunca ganhei nem frango em Quermece, gastei toda a sorte da vida. Além de chegar 1h30 antes do pelotão no local da largada, saboreei um incrível passeio pelo pacífico, sobrevoando as ilhas e uma cachoeira incrível, cerca de 300m de altura, rasgando a floresta e despencando no mar. Recomendo. Mas compre o ticket, 169 o fizeram, outro deu sorte!

Whistler
Down Hill


Você conhece o paraíso? Então conhece Whistler, não? Simples assim. Mas vou dar uma dica, só para você. Eu deixei para o final, mas faça o seguinte: vá antes do BC! Fique 2 ou 3 dias no paraíso. Alugue uma bike de Down Hill, compre o passe da gôndola do Bike Park e divirta-se, com parcimônia. Principalmente nos primeiros contatos. Você sairá diferente, entendendo um pouco mais o que significa Canada Dirt Tracks.


Eu e os novos amigos de infância Luiz Eduardo (SP), Ricardo Purri (BH), e Omer Shapira (Russo Judeu da Califórnia), combinamos: a primeira descida será na linha verde. Na metade, esquecemos o trato. Já pulamos para a primeira azul que apareceu. E solta o freio.

Na segunda descida, encaramos os dois lifts, até o mais alto possível para bikes, e conhecemos o êxtase! Blue Velvet é o seu nome, e eu passaria o resto da vida me deliciando com suas curvas. E saltos! Sim, deixe a bike fluir, mas ataque as rampas. A pressão final na suspensão, na cabeça da rampa, arremessa os sonhos. Você volta à infância (semi) responsável. E duas rampas abaixo, o juízo deixa de nos acompanhar. São centenas de saltos, incríveis. Corners perfeitos, mesas emendadas. UAU! Medo, adrenalina, não vai dar... quero mais.

Abusados, na terceira vez já estávamos nas pretas: Fast Jump Trail, Duffman, Drop Clinic (Que issssso!), Freight Train / No Joke. Cada uma melhor que a outra. Drops inesquecívies, raíz, rock garden, túneis com paredes, cascalho. Foram 10 descidas no total, quase 10 horas na função. Vontade de perder o voo no outro dia...

Para ter uma noção do que estou falando!

Dia-a-dia

Stage 1 - O terror se instala. Oncotô?
Stage 2 - Pânico generalizado. Agora lascou-se!
Stage 3 - Aprendi, ou o trem carmô?
Stage 4 - Muié!!!!! Proquê ocê deixou eu vir?
Stage 5 - Amor, perdi o voo da semana que vem, e só tem passagem para depois do natal. Vou passar o restinho do ano por aqui. Diga às crianças que estou com saudades. Bjs
Stage 6 - Visa Office? How can I move to Canadá?
Stage 7 - Já acabou? Posso dar outra volta, tio?



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