Fabrício Bezerra - Companheirismo em uma Stage Race

Publicado na Revista Bike Action Abril 2014



Em uma conversa de bar:

- Aos 53 anos fui diagnosticado diabético.
- E eu, aos 53 tive meu primeiro infarto. E você, Fabrício?
- Bem, eu… Estou com vergonha de falar. Aos 53 anos vou correr minha primeira ultramaratona de mountain bike na África. Falam “ultramaratona”, mas na verdade são só 800km. E 15.000m de subidas acumuladas. Mas eu acho que é mais descida!

Também conhecido como “Espalha Rodinha”, Fabrício Bezerra é meu parceiro, quem dividiu comigo o prazer de comemorar 53 anos de idade em uma corridinha ali, na África, durante o segundo estágio das 7 insanas.

Juntos já pedalamos mais de 2 mil km em competições, carregando a experiência de duas edições do Brasil Ride.

Quer um conselho? Gaste todo o tempo do mundo na escolha do parceiro. Isso pode ser a diferença entre atingir o objetivo, ou viver uma semana infernal durante uma Stage Race.




MTB Ultramaratona - Um tributo à parceria
Publicado no Correio Braziliense em nov/2011



O raciocínio que fundamenta a regra é simples: o percurso de uma ultramaratona de moutain bike, além de técnico, sinuoso e ermo, proporciona ao atleta, durante boa parte do dia, a solidão. E quando bate o cansaço físico, ou mesmo psicológico, a chance de cometer erros aumenta, assim como a margem de acidentes. Além disso, sempre ficamos com aquela ponta de competitividade que nos implora: - solte o freio!

Assim, a maioria das ultramaratonas que existem no mundo compartilham um mesmo princípio: a realização em duplas. Aos olhos da organização, não existe mais solidão. Em caso de acidente, resta um para fazer a primeira avaliação, solicitar resgate, e aguardar fazendo companhia. Além, claro, do contra-peso fundamental para recobrar o juízo quando alguém se excede.


Mas para os participantes, esse pode ser o princípio do fim. Se pedalar 100km em um dia é difícil, imagine fazer isso durante uma semana, com até 12h de duração de uma etapa, em território desconhecido.

O nível de estresse é alto, e generalizado. Nesse momento, o que deveria ser ajuda passa a ser “o problema”. Vejo duplas degladiando-se nas provas. Discussões, humor azedo, raiva até. Chegamos ao ápice de um integrante simplesmente ir embora da Bahia, no quarto dia de prova de uma edição do Brasil Ride, abandonando o companheiro. 



Enquanto esse cenário se desenvolvia, intenso, cheguei a sugerir ao meu parceiro: 

- Melhor arrumar um motivo para brigarmos. Acho que somente nós estamos errados! 

Mas em sete dias intensos de grande desgaste físico e psicológico no Brasil, ou plena superação na África, posso atestar que a minhas camisas e medalhas de finisher devem honras a um termo que jamais será esquecido: meu Parceiro. Assim, com letra maiúscula. Pelos momentos de compreensão, de apoio, de ajuda física até. Pela responsabilidade e zelo nas descidas técnicas, e pelo bom humor nas horas críticas.

Como digo sempre, não é necessário procurar muito para encontrar o lado pesado da vida. Mas para uma ultramaratona, a relação deve ser leve tanto para bicicleta como para os momentos de convivência.



Portanto, fica a dica: trate de construir, desde já, a parceria ideal. 


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