TransAndes Challenge 2014

As 7 Insanas
Estágio 1 - Chile
6 dias, 480km, 11.000 up
Publicado na Revista Bike Action 2014     Fotos: Marcelo Tucuna e Weimar Pettengill


Enquanto discutimos o futuro do Mountain Bike, avaliamos as tendências e pensamos sobre que o estaremos fazendo daqui a dez ou vinte anos, os números pipocam aqui pertinho do Brasil, do outro lado da Cordilheira dos Andes, mais precisamente na Patagônia Chilena.


Criado há 06 anos, o TransAndes Challenge foi a primeira iniciativa de se implantar no continente Sul Americano uma Stage Race - que convencionamos chamar, no Brasil, de ultramaratona de MTB. Um cenário incrível, de florestas milenares, vulcões e céu azul, o TAC - como é chamado pela organização - é hoje uma das portas de entrada da modalidade. 


Seis dias de prova, cerca de 400km de percurso e quase 11.000m de ascensão, por pior que possam parecer os números, são tranquilos. É claro que você vai reclamar que não acaba nunca, que aquela subida da primeira etapa é insana, que a do segundo dia, então, nem se fale! Mas no decorrer da semana, para quem fez o dever de casa e soube poupar energia nos primeiros dias, a impressão é das melhores. E certamente o atleta terminará a competição já com gosto de quero mais.

A prova de que estamos no caminho certo ao atrelar o futuro do MTB às Stage Races é clara. Entre 2013 e 2014 o TAC dobrou de tamanho. Melhorou a comida, que já era boa. Consertou o café da manhã. Ainda não acertou no banho e nos banheiros, mas já aprendeu como faz, ou melhor, quantos deve fazer. E fará um trabalho de base para outro salto quantitativo: a meta é sair dos 350 atletas de 2014 para 450 atletas em 2015.


A receita do sucesso passa pela criação de 19 categorias, uma grande festa do podium que privilegia não apenas os atletas profissionais como também os amadores - quem de fato paga pela incrível experiência. Passa também por ser uma das poucas provas que aceita a inscrição na categoria solo, por idade, masculino e feminino - um contrassenso no mundo das corridas por estágio.

E para coroar o caminho de quem quer experimentar uma “amostra quase grátis”, o TAC - Half Andes tem uma proposta tentadora, na medida certa para começar: No terceiro dia a caravana é invadida por atletas que vêm para completar “somente” os 03 últimos dias da competição.


Apesar de ser presenteado com um dos mais inesquecíveis single tracks (o downhill do vulcão Mocho-Choshuenco na Reserva Huilo-Huilo, no primeiro dia), o percentual de trilhas é pequeno, e no geral não deve ultrapassar 20% do roteiro proposto. A prova se desenvolve basicamente por estradas de terra e nas Jeep Roads, estradas vicinais com aspecto de abandonadas, o que diminui bastante o nível de exigência técnica. Mesmo alguns poucos trechos de descidas mais exigentes são feitos dentro da mata, ao abrigo do sol, com muita terra e sedimentos - uma experiência diferente e muito agradável.

A esses ingredientes, claro, soma-se o visual indescritível da Região da Araucanía, no sul do Chile e principalmente o clima de aldeia na vila dos atletas. A imensa maioria dos participantes fica hospedado nas barracas do camping, proporcionando uma convivência muito interessante entre 26 países diferentes. Uma verdadeira torre de Babel em torno de um símbolo comum de reverência: a bicicleta.


Essa mistura de culturas proporciona encontros de uma vida: Matthias Grick, piloto austríaco da KTM, 23 anos. Mariana Carcute - BMC, minha parceira “catada à laço” poucas horas antes da largada, com quem dividi o prazer de trazer para o Brasil o troféu de primeiro lugar da categoria Mix 60. Brig Seidl - um americano louco com o nosso país, que sempre vai para o jantar com um caderno de anotações e traduz do inglês para o português os nomes das peças de bicicleta, como preparação para vir pedalar no Brasil Ride. Basta uma semana de convivência para já sentir saudade de tantos novos “melhores amigos”.

Temperados pelo bom humor da mais nova “amiga de infância”, Adriana Boccia, o sofrimento do dia vira piada à noite, enquanto preparamos o espírito para o próximo estágio. Nem mesmo a chuva torrencial e totalmente fora do padrão da época naquela região estraga a festa. Depois de 50 horas de céu com a torneira aberta - e um dia e meio com a corrida parada, transformamos a tenda principal em uma grande Rave. 


Aguardando a re-largada, os brasileiros puxaram o carro da gandaia. Não demorou para surgirem performances inspiradas em cima das mesas. Plena manhã de quarta-feira e uma festa sem precedentes no coração da Patagônia! Dançamos tanto que o espírito da montanha não suportou: mandou a chuva pra longe, devolveu o céu azul e, com ele, nossa Carrera.

Para quem está de fora, correr uma Stage Race intriga. Como treinar? Quanto treinar? Preciso trocar de bike? Quem será meu parceiro? Como viabilizar financeiramente? São tantas questões, que muitos não passam dos planos. Mas depois de 06 provas em 04 anos (Janeiro 2014), sou taxativo: não há nada melhor acontecendo no universo da bicicleta que possa privilegiar amadores e profissionais no mesmo evento, na mesma trilha.


Esse foi o pensamento por trás do Projeto As 7 Insanas. Escolhemos as 07 provas mais difíceis e badaladas do planeta para, em 22 meses percorrer 4.400km, subir 92.000m e conhecer, pedalando, 10 países. Tudo isso para coletar impressões, definir métodos de avaliação e comparação para facilitar o caminho de quem pretende conhecer a melhor parte do mundo fazendo o que mais gosta: pedalando. 


O projeto inicial começou em janeiro com o Trans Andes Challenge. Contempla ainda o Cape Epic, maior evento do mundo, na África do Sul, o BC Bike Race no Canadá, reconhecida pelos intermináveis e técnicos 400km de single tracks, o Brasil Ride - a prova mais difícil do mundo nas palavras dos campeões Christoph Sauser e Rebbeca Rusch, o Transalp - entre Alemanha, Áustria e Itália - com 22.000m de ascensão, o temível Titan Desert no Marrocos e a exótica Mongólia, com 1.000km de percurso.






Próximo estágio: The Cape Epic, South Africa.
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