Brasil Ride 2014

7 Insanas
Estágio 4
Mucugê - BA
Brazil

Publicado na Revista Evoke - Dez 2014 
Fotos: Sportgraf / Text: Weimar Pettengill

Tudo começou em 2010. Caí de pára-quedas em um verdadeiro campo de batalhas. Há muito tempo os esportes de endurance vêm mexendo com minha imaginação, e com boa parte das pessoas que descobrem, aos poucos, a fantástica máquina que é o corpo humano.

Tentei as ultramaratonas à pé, corri 04, sendo uma delas de 120km. Bom, mas machuca muito. Tentei as corridas de aventura, as provas de multisport, escalada em alta montanha, mas pedalar 600 km de moutain bike em uma semana sempre esteve um passo além. Longe da minha realidade.

Já tinha ouvido falar da mãe das Stage Races, La Ruta De Los Conquistadores - na Costa Rica. E do Cape Epic na África do Sul. E do TransAlp, na Europa. Mas nunca me aproximei. Nunca me deixei seduzir.

Experimentando as trilhas Sul Africanas no Cape Epic 2014

Até que me vi, completamente perdido, na bucólica Mucugê - BA. Como um cachorro que cai do caminhão de mudança, ainda me lembro da sensação. Aos pés de uma bela montanha, vizinho de um cemitério em estilo bizantino em plena Chapada Diamantina, boquiaberto, entre as tendas do acampamento base. Cheguei onde sempre quis estar, foi a conclusão óbvia.

Campo Base em Mucugê, Chapada Diamantina

Mais de 20 países representados. Atletas da corrida de aventura, do triatlo, do mountain bike. E dezenas de desavisados, como eu.

Cinco anos se passaram. E o encontro daquele dia permanece vívido. Estive em todas as edições da Ultramaratona de Mountain Bike mais difícil do planeta. E garanto: não há nada melhor acontecendo no universo das duas rodas que reúna atletas profissionais e amadores no mesmo grid de largada. Objetivos e estratégias completamente diferentes, venerando um objeto único, realizador de sonhos: a bicicleta.



Ouvi de atletas do set mundial, como Christoph Sauser (Suíça) e Rebecca Rush (EUA), e testemunhei eu mesmo em provas internacionais: não há competição mais dura que o Brasil Ride. Na África, por exemplo, o principal evento mundial, com 200km a mais e 1 dia extra, não sofremos tanto. Talvez em razão do clima que oscila absurdamente várias vezes por dia. E certamente em razão das trilhas, feitas para bicicletas, com toda intervenção humana possível e imaginável. Parece fluir com mais naturalidade lá no continente africano.

Enquanto isso, transitando entre os campos de altitude e rock gardens do alto da Chapada e a caatinga em sua essência, no entorno das serras, aproveitando caminhos naturais e trilhas centenárias da época da mineração de diamantes do Brasil Colônia, o Brasil Ride nos leva a explorar cenários de contrastes.



Hora nas gerais, com falso-plano e retas intermináveis de areião, noutras em trilhas cinematográficas. Algumas vezes atravessando rios, e inegáveis banhos de cachoeira no meio da prova. Às vezes na garoa fina da madrugada, sob neblina intensa, noutras cercados de espinhos e ossadas de animais, castigados à morte pela dureza da vida no Sertão. E por falar em dureza, horas a fio pedalando sob o sol escaldante, que em 2014 alcançou impensáveis 56℃. Quando bate um vento, queima o rosto, como se estivesse abrindo um forno poderoso.

Casas abandonadas em meio à Caatinga: novo cenário, pós bolsas sociais

Mas em que pese a dificuldade da vida do sertanejo, nas casas de adobe em meio às plantações de palma - por vezes a única fonte de alimento disponível para o gado e para seus proprietários - sempre encontramos sorrisos. Homens, mulheres e crianças que param a vida para ver a banda passar, ou o bonde, ou o pelotão, se preferir. Não raro, uma dupla solitária de atletas passa, em silêncio, cabeças pendendo para o lado, reunindo as últimas energias. É naquele grito encorajador que se descobre forças desconhecidas para seguir adiante.

- Vá com Deus! - Grita o sertanejo, de quem tudo tiram, exceto a fé.

E nessa torre de babel, de ciclistas e suas intrépidas máquinas de fazer força, a estatística me salta aos olhos. Cerca de 500 atletas largaram, dentre tantos países, entre brasileiros do Oiapoque ao Chuí. E uma cidade aponta única no cenário do Brasil Ride. Havia 168 troféus disponíveis, premiação somente até o terceiro colocado de cada categoria, em cada etapa diária.

Henrique Andrade (PraQuemPedala) - parceiro do Ride 2014 
- com quem aprendi a andar de MTB, finalmente!

Mesmo sem representantes em duas das oito categorias (Corporate e Nelore), Brasília levou 41 troféus! Simplesmente 24,4% das premiações de uma prova internacional, entre as 5 melhores do mundo e certamente a mais difícil. Se nossos atletas são capazes de uma proeza dessas, praticamente sem incentivos, estou convencido que a capital do país é muito mais que o cenário podre da política, que tanta decepção tem dado ao nosso país. Infelizmente não têm a visibilidade que merecem. Pois aqui ficarão registrados os responsáveis por colocar Brasília no podium do Brasil Ride 2014. 

Congratulações! Vocês são exemplo de dedicação e superação.

Abraão Azevedo
André Decanha
Walter Germano
José Antonio Ferreira
Fabrício Bezerra
Sérgio Albernaz
Julyana Machado

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