Pai de Aluguel - Audax 200km

Publicado na Revista Evoke


- Capitão, preciso contratar um Pai de Aluguel.
- Como assim?
- Pepeu quer fazer o Audax 200km, semana que vem.
- Uai, e você?
- Capitão! Não é má vontade. Queria demais. É que nem na roda dele eu consigo andar mais.
- Nesse caso, aceito a empreitada.

Ele, o Pepeu, tentou ser simpático. Me ligou para tentar marcar ao menos um treino juntos. Ligou para pedir dicas de alimentação. Dicas de pedal. 

- Pepeu, estou ocupado, já te ligo. 

Nunca retornei. E me arrependi quando, na véspera do AUDAX 200km, às 23h45, ele chegou para dormir na minha casa, já que teríamos que acordar às 4 da madrugada.

- Quanto você pesa, moleque?
- 40kg, tio.
- Primeiro, esquece o “Tio”. Segundo, isso é peso de gente? Quer dizer, dá pra respirar e pensar, ao mesmo tempo? E quanto você mede?
- 1,65, tio, quer dizer, Weimar.
- 1,32? Com esse chassis de grilo depois da redução de abdomen e essas pernas de borboleta marombeira, você acha mesmo que dá pra pedalar 200km?
- Não sei...

O dia será longo, pensei.

Chegamos atrasados na largada. Meia hora para ser preciso. Orientados pelo organizador do Audax 200km, não fizemos a primeira alça de 17km no Lago Norte - deixamos para o final, seguimos para o pelotão, por questões de segurança.

Com 3 min de pelotão:

- Tudo bem contigo, rapá? Vamos nessa?
- Acelera!

Atacamos.

- Moleque, algumas poucas pessoas me chamam de Sem Noção. Então é o seguinte: Vamos no seu ritmo. Se eu forçar, me avise. Você tem que ficar um pouco acima da zona de conforto. Se passar, me grite.
- Pode diminuir, só um pouquinho, então?

Falou já chegando no Colorado, no final da subida. Seguimos rumo à Torre Digital, com Brasília ainda iluminada, no breu, à direita. À esquerda, o sol teimando em nascer, novamente. Ali, naquela crista de visão privilegiada, é que me dei conta do que estávamos fazendo. Pedalar 200km aos 14 anos de idade é um grande feito. Mas sob minha responsabilidade? Vou caprichar.

- Fica na roda, doido. Vamos voar. 

Quase não segurei as lágrimas de emoção. Ele não vai esquecer tão cedo esse dia, se depender de mim. DF001, Itapoã, Paranoá, Barragem, Ermida, Lago Sul, Gama. E ele feito carrapato, na roda. Na dignidade. Sofrendo calado. Projeto de ogro. A certa hora, no plano, olhei para o Garmin: 42km/h!

- Tudo certo aí, Pepeu?
- Pode diminuir, só um pouquinho?

Baixei para 39km/h. Se diminuir muito, acomoda. Deixa ele sofrer. É assim que se aprende.

Confesso. Judiei. Amassei, esfolei, ataquei. E ele na roda. Lembrei do coração de mãe, da bondade eterna com a cria. Quase pude ver Sra. Mãe do Pepeu, olhos mareados, no soluço que antecede o pranto convulsivo:

- Wei, o que você está fazendo com o meu bebê?

E não aguentei o apelo da matrona, na esfera mental. Acelerei. 

- Toma moleque. Devia estar inscrito no curso avançado de Code Full para GTA. Ou na turma básica de plié avançado de Ballet pós-moderno. Preferiu pedalar? Então segura mais uma. Toma. E toma novamente. Mais uma, só pra não perder o costume.

Na segunda vez que subimos a Barragem do Paranoá em direção à Ermida, com 168km percorridos, ele balançou:

- Weimar, acho que preciso alongar. Estou começando a ter cãibras nos dedos dos pés.

De olho na caramanhola dele, cheia de Gatorade, disse bem sério:

- Moleque! Cãimbra no dedo do pé é bom sinal, sempre tenho e nunca acontece nada. Agora, nós precisamos achar algum líquido vermelho para você beber, urgente.
- Eu tenho aqui!
- Então beba tudo, agora.

Ou fiz a maior descoberta do Planeta Terra, ou descobri uma forma de fazê-lo acreditar. Eu já estava com os piores prognósticos para o final do nosso pedal, quando acessamos a L2 Norte. Quando meu parceiro renasceu das cinzas.

Lembrava os rituais de passagem das tribos peruanas. Solta o menino no meio do mato, sem nada. Se voltar, volta homem. Ali, andando novamente a 40km/h, não era mais o Pepeu, filho do meu amigo / irmão de uma vida inteira. Não era mais o moleque de 14 anos, criança, ainda. Quem estava na minha roda, ainda na dignidade que o só o sofrer calado proporciona a um homem era o meu novo parceiro, brother, o Pedrão.

Subi o lago norte no sprint, ele na roda, em pé, assim como eu. No quilômetro 186 a chuva caiu forte, para lavar a alma e abençoar as pernas. Voamos juntos, peito inchado que não cabia tanto orgulho.

Terminamos os 200km com 7h20 de roda girando, e paradas para 02 pneus furados e um açaí levantador de espírito. Dia bom. Inesquecível. Bem-vindo ao time Ogro, Pedrão. 

E enquanto você acaba de ler esse texto, o Pedrão voa da Espanha para Brasília. Aos 14 anos, depois de pedalar 200km comigo, levou o pai ali, para fazer o Caminho de Santiago de Compostela. 

- Vá, Pedrão. Vá conquistar seus sonhos.



A resposta

Coronel Pettengill, 

Ontem você fez de tudo para me incentivar e manter meu psicológico alto durante a toda a prova. Confesso que na estrada do Lago Norte, quando nós paramos para tomar aquele açaí, para levantar o defunto (eu), estava receoso de perguntar quantos quilômetros faltavam. Não perguntei, mas achava que naquela altura do jogo já estávamos mais ou menos aos 180 km quase chegando, foi quando nos sentamos e você mandou:

- Já rodamos 140 km!

Aquilo me levou pro chão, estava moído. Logo depois seguimos pelo lago norte (ML) para entrar no Lago Sul. Naquela parte eu cogitei de desistir, mas vc estava me incentivando, gritando e dando esperança para mim. 

Ao chegar ali na subida da Barragem meus dedos estavam me matando. Vc me chamou de mulherzinha e me mandou beber todo "líquido vermelho" miraculoso da minha garrafa. Foi engraçado! Você falou:

- Cadê o homem que estava aqui comigo, 50km atrás?

Eu estava quebrado, mas colei na sua roda e concentrei, rezando pra aguentar até a chegada.

Wei, ontem foi um dia inesquecível. Por várias vezes eu achei que não ia dar conta!

Não tenho nem palavras para dizer como foi divertido, legal, cansativo, estranho e recompensador completar esse desafio.

Coronel, você além de exemplo de atleta, pai de aluguel, inspirador de muitas pessoas e muitas outras coisas, eu sou se fã!


Comecei a ler um livro chamado Brasilia - Paraty e já to cheio de ideias. Enquanto isso, Audax 300km topa?

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